Vida de Santos
São Padre Pio: O Santo que Carregou as Chagas de Cristo por 50 Anos

Padre Pio de Pietrelcina recebeu os estigmas em 1918 e os carregou por cinco décadas, tornando-se um dos santos mais populares do século XX.
Por João Alberto Pereira · · 9 min de leitura
Resumo
- Nome de batismo: Francesco Forgione, nascido em 25 de maio de 1887 em Pietrelcina, no sul da Itália.
- Entrou para a Ordem dos Frades Menores Capuchinhos em 1903, aos 15 anos, e foi ordenado sacerdote em 1910.
- Recebeu os estigmas visíveis em 20 de setembro de 1918, no convento de San Giovanni Rotondo.
- Passou por investigações médicas e eclesiásticas e por restrições impostas pela Santa Sé, que aceitou com obediência.
- Confessava por muitas horas todos os dias; fundou a Casa Alívio do Sofrimento e os Grupos de Oração.
- Beatificado em 1999 e canonizado em 2002 por São João Paulo II; sua memória litúrgica é em 23 de setembro.
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São Padre Pio de Pietrelcina foi um frade capuchinho italiano que, segundo os testemunhos reunidos pela Igreja, carregou as cinco chagas de Cristo em seu corpo por cerca de 50 anos, de 20 de setembro de 1918 até pouco antes de sua morte, em 23 de setembro de 1968. Foi canonizado por São João Paulo II em 16 de junho de 2002 e é lembrado sobretudo como confessor incansável, homem de oração e devoto do terço — muito mais do que como fazedor de prodígios.
Quem foi Padre Pio?
Francesco Forgione nasceu numa família de camponeses pobres e profundamente católicos em Pietrelcina, na região da Campânia. Desde menino mostrava uma piedade incomum: passava longos momentos na igreja da aldeia e, segundo relatos da própria família, já falava com naturalidade sobre o seu anjo da guarda. Aos 15 anos foi recebido no noviciado capuchinho de Morcone, onde tomou o nome religioso de Frei Pio, em homenagem a São Pio V.
A saúde frágil marcou toda a sua formação. Febres altíssimas, problemas respiratórios e longos períodos de convalescença obrigaram seus superiores a enviá-lo várias vezes de volta a Pietrelcina. Mesmo assim, foi ordenado sacerdote em 10 de agosto de 1910, na catedral de Benevento. Em 1916 chegou ao convento de Santa Maria das Graças, em San Giovanni Rotondo, um lugarejo pobre e isolado no monte Gargano, na Apúlia. Ali ficaria praticamente o resto da vida — 52 anos no mesmo convento.
É importante dizer desde já: a Igreja não canonizou Padre Pio por causa dos fenômenos extraordinários. Num processo de canonização, o que se examina são as virtudes heroicas — fé, esperança, caridade, humildade, obediência — e milagres atribuídos à intercessão do candidato depois da morte. Os estigmas fazem parte da história, mas não são o motivo da santidade.
O que são os estigmas?
Estigmas são feridas que aparecem no corpo de uma pessoa nos mesmos lugares das chagas de Jesus crucificado: mãos, pés e lado do peito. O caso mais antigo e conhecido é o de São Francisco de Assis, que os recebeu em 1224, no monte Alverne. São Paulo já escrevia aos gálatas: "Trago em meu corpo as marcas de Jesus" (Gálatas 6,17), embora a maioria dos estudiosos leia essa frase como referência aos sofrimentos do apostolado.
A Igreja é muito prudente com esses fenômenos. Ela não exige que nenhum católico acredite em estigmas de uma pessoa específica: trata-se de um sinal particular, que pode ser examinado, mas que não acrescenta nada à Revelação. O Catecismo ensina que as revelações e os sinais privados não completam a fé, mas podem ajudar a vivê-la melhor em determinada época (CIC 67). Por isso, cada caso é investigado com médicos, teólogos e com o tempo — e muitos são rejeitados.
Como Padre Pio recebeu as chagas?
Segundo a carta que o próprio Padre Pio escreveu ao seu diretor, o padre Benedetto de San Marco in Lamis, na manhã de 20 de setembro de 1918 ele rezava sozinho no coro da igreja, depois da Missa, diante de um grande crucifixo. Descreveu ter visto uma figura misteriosa, semelhante à que já o havia ferido semanas antes, com as mãos, os pés e o lado sangrando. Quando a visão desapareceu, percebeu que as próprias mãos, pés e lado também sangravam.
O frade pediu insistentemente a Deus que lhe tirasse os sinais visíveis — não a dor, mas a humilhação de ser olhado. Usava luvas de lã sem dedos durante o dia e procurava esconder as feridas. Ainda assim, a notícia se espalhou rapidamente pela Itália, e multidões começaram a subir o Gargano para vê-lo.
Os estigmas foram examinados por médicos?
Sim, várias vezes. Em 1919, o médico Luigi Romanelli examinou as feridas e registrou que eram profundas e que não apresentavam sinais de infecção nem tendência a cicatrizar. No mesmo ano, o professor Amico Bignami, da Universidade de Roma, sugeriu uma origem natural e mandou enfaixar as mãos para ver se cicatrizariam — o que não aconteceu. Também o médico Giorgio Festa, enviado pela Ordem, fez exames detalhados e descreveu o perfume que muitas pessoas sentiam perto do frade.
Houve também quem duvidasse com seriedade. O padre Agostino Gemelli, médico e fundador da Universidade Católica de Milão, visitou o convento e emitiu um parecer muito crítico. A Santa Sé levou essas dúvidas em conta e, entre 1923 e 1933, impôs restrições a Padre Pio: proibiu-o por um período de celebrar Missa em público e de confessar, e limitou o contato com os fiéis. O frade obedeceu sem protestar. Essa obediência silenciosa, mais do que as chagas, foi decisiva para os teólogos que mais tarde examinaram sua vida.
Os dons místicos atribuídos a Padre Pio
Além dos estigmas, muitas testemunhas relataram outros fenômenos durante a vida de Padre Pio. Vale apresentá-los com o mesmo cuidado que a Igreja tem: são relatos, alguns muito bem documentados, outros transmitidos pela piedade popular.
Leitura de consciências
O dom mais citado pelos penitentes era a leitura de consciências. Muitos contaram que o frade lhes lembrava pecados que tinham esquecido ou deliberadamente omitido na confissão. Ele podia ser muito duro — chegava a mandar embora quem vinha sem arrependimento verdadeiro —, mas os mesmos relatos dizem que essas pessoas voltavam, muitas vezes transformadas.
Bilocação
Bilocação é o fenômeno de alguém ser visto em dois lugares ao mesmo tempo. Há dezenas de relatos atribuídos a Padre Pio, incluindo visitas a doentes em outras cidades sem que ele saísse do convento. Esses relatos fazem parte do material reunido no processo, mas não foram eles que fundamentaram a canonização.

O confessionário: o verdadeiro centro da vida de Padre Pio
Se fosse preciso resumir a missão de Padre Pio numa imagem, não seria a das mãos feridas, mas a do confessionário. Durante décadas ele passou em média de dez a doze horas por dia ouvindo confissões. A procura era tão grande que os frades criaram um sistema de senhas e a espera podia levar vários dias.
Para ele, a confissão não era um trâmite, mas um encontro com a misericórdia de Deus. Aconselhava confessar-se com frequência, ao menos uma vez por semana, mesmo sem pecados graves, porque "o quarto fechado acumula poeira". Se você quer se preparar bem para esse sacramento, veja o guia de como se confessar passo a passo e o roteiro de exame de consciência.
A Missa e o terço: o segredo de Padre Pio
Quem assistia à Missa de Padre Pio não esquecia. Ele celebrava devagar, às vezes por mais de uma hora, visivelmente comovido no momento da consagração. Dizia que seria mais fácil a Terra existir sem o sol do que sem a Santa Missa. Para ele, cada Missa era a renovação do sacrifício do Calvário — exatamente o que ensina o Catecismo (CIC 1366-1367).
A outra arma era o terço. Rezava dezenas de terços por dia e chamava o rosário de "a arma". Pouco antes de morrer, quando lhe perguntaram que herança deixava aos seus filhos espirituais, respondeu apontando o terço. Contamos essa história em detalhes no artigo o terço, arma dos santos, segundo Padre Pio, e você pode aprender a rezá-lo no guia de como rezar o Rosário passo a passo.
A Casa Alívio do Sofrimento e os Grupos de Oração
A santidade de Padre Pio teve também uma face muito concreta. Impressionado com a falta de assistência médica no sul da Itália, ele promoveu a construção de um hospital em San Giovanni Rotondo, a Casa Alívio do Sofrimento, inaugurada em 1956 com doações vindas do mundo inteiro. Hoje é um dos maiores hospitais da região e pertence à Santa Sé.
Ao mesmo tempo, a pedido do Papa Pio XII, que em 1942 convidou os fiéis a se unirem em oração, Padre Pio incentivou os Grupos de Oração: pessoas que se reúnem regularmente para rezar pelas intenções do Papa e da Igreja. Esses grupos existem até hoje em dezenas de países, inclusive no Brasil.
Morte, beatificação e canonização
Padre Pio morreu em 23 de setembro de 1968, aos 81 anos, pouco depois de celebrar o cinquentenário de seus estigmas. Suas últimas palavras foram os nomes de Jesus e Maria. Mais de cem mil pessoas participaram do funeral em San Giovanni Rotondo.
O processo de canonização foi aberto em 1983. São João Paulo II — que, segundo várias biografias, havia se confessado com Padre Pio em 1947, ainda jovem sacerdote — beatificou-o em 2 de maio de 1999 e o canonizou em 16 de junho de 2002, na Praça de São Pedro, diante de uma das maiores multidões já reunidas no Vaticano. O milagre aprovado para a canonização foi a cura de um menino italiano, Matteo Pio Colella, que estava em coma em 2000 com uma meningite gravíssima.
O que Padre Pio ensina para nós hoje?
Três lições atravessam toda a sua vida. A primeira é a obediência: mesmo injustiçado, ele aceitou as restrições da Igreja sem rebeldia, convencido de que Deus age também por meio das decisões dos superiores. A segunda é o valor do sofrimento oferecido: Padre Pio não buscava a dor, mas a unia à cruz de Cristo pela salvação das almas, como ensina São Paulo em Colossenses 1,24. A terceira é a confiança: sua frase mais conhecida resume tudo — "Reze, espere e não se preocupe. A preocupação é inútil. Deus é misericordioso e ouvirá a sua oração."
Perguntas frequentes
Padre Pio é santo canonizado?
Sim. Foi canonizado por São João Paulo II em 16 de junho de 2002 com o nome de São Pio de Pietrelcina. Sua memória litúrgica é celebrada em 23 de setembro.
Por quanto tempo Padre Pio teve os estigmas?
Cerca de 50 anos: de 20 de setembro de 1918 até sua morte, em 23 de setembro de 1968. Segundo os frades que o acompanharam, as feridas se fecharam nos últimos dias de vida.
A Igreja obriga a acreditar nos estigmas de Padre Pio?
Não. Fenômenos místicos são sinais particulares e ninguém é obrigado a crer neles. A Igreja canonizou Padre Pio pelas suas virtudes heroicas e por um milagre aprovado após a morte, não pelos estigmas.
Qual é a oração mais conhecida de Padre Pio?
A "Fica comigo, Senhor", que ele rezava depois da comunhão, e a novena ao Sagrado Coração de Jesus que recitava diariamente pelas intenções que lhe confiavam. Ele também recomendava, acima de tudo, o terço.
Oração a São Padre Pio
São Padre Pio, que carregastes em vosso corpo as chagas de Nosso Senhor e passastes a vida no confessionário e no altar, intercedei por nós. Alcançai-nos a graça de uma confissão sincera, de um amor verdadeiro pela Santa Missa e de fidelidade ao terço. Ensinai-nos a rezar, esperar e não nos preocupar, confiando na misericórdia de Deus. Amém.
Fontes
- Catecismo da Igreja Católica, parágrafos 67, 1366-1367 e 1458.
- Santa Sé — Homilia de São João Paulo II na canonização de Padre Pio, 16 de junho de 2002 (vatican.va).
- Dicastério das Causas dos Santos — biografia de São Pio de Pietrelcina.
- Padre Pio de Pietrelcina, Epistolário I, carta ao padre Benedetto de San Marco in Lamis (22 de outubro de 1918).
- Bíblia Sagrada: Gálatas 6,17; Colossenses 1,24.